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Ozarfaxinars

e-revista  ISSN 1645-9180

Direção: Jorge Lima   Edição e Coordenação: Fátima Pais

 

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___93___

Outubro 2020

A incontornável dimensão tecnológica da atividade docente

Jorge Lima

Pode exercer-se a atividade docente sem recorrer a tecnologia? Arrisco, logo de início, afirmar que não. Bem, se calhar pode, mas a quase totalidade dos docentes utiliza tecnologia na sua ação educativa, sob variadas formas, desde “tempos imemoriais”, pelo que arrisco assim afirmar que existe uma incontornável dimensão tecnológica na atividade docente, um conjunto de meios de que os docentes se foram apropriando, não por acaso, mas por que constituíram instrumentos facilitadores das aprendizagens dos seus alunos. 

 Eu sou do tempo em que a atividade docente se exercia em sala de aula tendo como suportes tecnológicos: o quadro negro, o pau de giz, o apagador, mapas e modelos empalhados ou em madeira ou gesso, o livro único e, muito de vez em quando, o projetor de diapositivos ou o episcópio e até, pasme-se, o projetor de cinema. Depois, lá longe, ficava a biblioteca que encerrava livros e enciclopédias e onde, acima de tudo, era proibido falar ou mesmo sussurrar.

O quadro negro era o centro de todas as atenções onde os docentes faziam aparecer circunferências primorosamente cortadas por secantes, estigmas e gineceus, ângulos retos, triângulos rigorosamente isósceles, espadas romanas, bacias hidrográficas, elmos etruscos, loooooongas demonstrações de teoremas, raízes quadradas, declinações, palavras estrangeiras, cordilheiras, rebatimentos e vulcões. As técnicas de desenhar, esquematizar, esboçar, escrever no quadro negro a pau de giz, tornaram-se incontornáveis para os docentes apesar do longo reportório de alergias que causaram. E até havia giz de várias cores – um arco-íris com que alguns docentes engalanavam as suas apresentações.

Dos quadros negros deste país foram, diariamente, hora a hora, apagados verdadeiros portefólios, genuínas ilustrações, autênticos posters que literalmente se esfumaram em poeira nos apagadores que depois eram ritmicamente batidos na beira da janela, do lado de fora, não deixando dúvidas a quem passava que aquele edifício era uma escola.

 Os mapas, mesmo queimados pelo tempo ou rompidos num canto, mesmo mostrando o Congo no lugar onde já devia estar o Zaire, mesmo fazendo das algas plantas quando já deveriam ser protistas, tornaram-se incontornáveis para os docentes de Geografia ou de Ciências, por exemplo.

 Os modelos em gesso eram deslumbrantes, ornamentavam a parte de cima dos armários do laboratório de Ciências e encimavam colunas de madeira na sala de Desenho. O da flor, por exemplo, “demonstrava” em milissegundos o que o livro demorava duas páginas e meia a descrever e o docente de Ciências mais ou menos dez minutos a explicar. Os modelos em gesso, quando existiam na escola, tornaram-se incontornáveis para os docentes de Ciências, de Desenho, de Geografia... O mesmo se pode dizer dos modelos em madeira que em três dimensões desnudavam as moléculas e até o átomo, sem esquecermos o sistema ortorrômbico ou o dodecaedro deltoide. Os modelos de madeira, quando existiam na escola, tornaram-se incontornáveis para os docentes de Matemática, de Ciências, de Física e Química, de Desenho…

 Quanto ao livro único, como sabem, nunca deixou de existir, se tivermos em conta que os livros escolares de hoje tanto se assemelham entre si… Mas aqueles livros únicos é que eram mesmo únicos, mesmo apropriados para uma escola que dizia “Normal” por cima da porta de entrada. Nunca descobri onde ficariam outras escolas que, suponho, não seriam normais. Mas o livro único, apesar de todos os defeitos que lhe possamos apontar, foi uma tecnologia que se tornou incontornável para os docentes, tanto que, ainda hoje, a sua adoção/aquisição continua a ser mandatória para todos os alunos.

 O projetor de diapositivos era um luxo próprio de dias de festa. Mas deslumbrava… empurrava-se um quadradinho por uma ranhura de luz e na parede aparecia a Torre Eiffel toda, a Floresta Amazónica, o Taj Mahal, a Mona Lisa ou a Invencível Armada feita em fanicos. Os diapositivos eram guardados em pastas esquisitas e as coleções custavam uma pequena fortuna que se permutavam, apenas a título de empréstimo, entre escolas próximas. Apesar de matéria-prima rara e cara os diapositivos tornaram-se incontornáveis para muitos docentes.

 O episcópio, convenhamos, queimava os livros. Eram uma espécie de microondas onde, se nos esquecíamos do livro na mesma página demasiado tempo a demora cheirava… e muitas vezes já não chegávamos a tempo de evitar ficar com o Ciclo de Krebs crestado para sempre. Era uma máquina de proporções desmesuradas para o efeito que produzia, mas tinha o charme de uma lanterna mágica, a sua tetravó. O episcópio tornou-se uma tecnologia incontornável para muitos docentes.

 Ah e depois havia o projetor de cinema… ali, à nossa frente, no meio da sala de aula, sem segredos, uma máquina de crepitar quilómetros de fita, que demolia a parede para deixar ver o mundo... a mexer... O cinema teria sido uma tecnologia incontornável para muitos docentes se todas as escolas tivessem máquina de projetar e já agora… fitas…

 Apesar de ter sido criado em 1902 por Roger Appledorn para a empresa 3M, o retroprojetor chegou às nossas escolas nos finais dos anos 70, início dos 80. O trabalho investido de forma efémera nas representações desenhadas nos quadros negros que se esfumavam ao longo dos anos em pó de giz podia agora perdurar e ser partilhado entre os docentes... em finas camadas. Rapidamente esta tecnologia se tornou incontornável para os docentes.

 Para a produção de materiais a máquina de escrever, fosse HCESAR ou AZERT, sem grande margem para erros, levava os docentes às arribas da escrita em letra de forma. Depois, impulsionadas a álcool ou a óleo, as letras multiplicavam-se… tinha despontado o controverso universo das policópias que requeria apenas um requisito – as matrizes tinham que ser entregues na reprografia com dois dias de antecedência. Rapidamente esta tecnologia se tornou incontornável para os docentes.

A tecnologia vídeo associada à televisão foi a conquista seguinte. Não demorou muito para que as escolas se organizassem e fosse relativamente simples requisitar e ter disponível com frequência na aula um equipamento misto para visionar documentos vídeo, filmes, documentários… Daí à produção nesse suporte foi um passo… Rapidamente esta tecnologia se tornou incontornável para os docentes.

 Foi nos anos 90 que os computadores chegaram às escolas. Processar texto, efetuar cálculos, desenhos e apresentações, tudo ficou mais facilitado. O teclado mudava, agora era QWERTY, e com ele vinham teclas mágicas escritas em estrangeiro – Delete, Undo, Escape que nos ensinaram que errar é tão humano como corrigir os erros que se cometem. A pouco e pouco, a multifuncionalidade dos computadores iniciou um lento mas contínuo movimento centrípeto que fez migrar para a sua esfera digital a maioria dos meios tecnológicos existentes, até mesmo o quadro negro que se tinha tornado verde, depois branco e agora interativo. Com um início quase imberbe, em que sempre que o computador acordava se tinha que lhe dizer, através de disquetes flexíveis, quem ele era, como se chamava, o que era capaz de fazer e que aparelhos tinha ligados a si, o computador ganhou progressivamente um enorme potencial e múltiplas formas normalmente referenciadas em língua estrangeira – Desktop, Laptop, Palmtop, Tablet, Smartphone. Rapidamente esta tecnologia se tornou incontornável para os docentes apesar de todos os constrangimentos crónicos e limitações. Sobre esses só esforços continuados e bem direcionados podem evitar a queda inevitável para as profundezas da desatualização.

 A tecnologia que, até aos anos 90, tinha chegado à escola e à atividade docente gradualmente, aumentava agora o ritmo... e o melhor ainda estava para vir…

Com o despontar da Internet, com a WWW – World Wide Web, a rede em redor de todo o mundo, a realidade ultrapassou literalmente a ficção e as previsões mais visionárias. Em 1945, Vannevar Bush, no artigo As We May Think, idealizava uma máquina, que designou por Memex, capaz de armazenar todo o conhecimento existente que seria depois acedível por meios eletrónicos, auxiliando assim as fragilidades da memória humana. A Internet, desde que deixou de ser apenas uma rede de informação militar, caminha para ser essa “máquina” global da humanidade que nunca estará terminada e que constitui hoje uma ferramenta fulcral de apoio às aprendizagens.

Pierre Lévy, no seu livro As Tecnologias da InteligênciaO Futuro do Pensamento na Era Informática, refere: No mundo das telecomunicações e da informática, elaboram-se novas formas de pensar e de conviver. As relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem, efectivamente, da metamorfose incessante de dispositivos informáticos de toda a ordem.

Na entrada deste novo século os desafios tecnológicos que se colocam à atividade docente são, convenhamos, mais exigentes do que foram os anteriores, mas, em contrapartida, possuem inexoravelmente maior potencial pedagógico, passando a ser incontornável para os docentes:

 

Gerir pastas e ficheiros digitais

Converter ficheiros

Compactar e descompactar pastas e ficheiros

Editar texto, imagens, sons

Produzir cálculos

Criar gráficos a partir de cálculos

Criar apresentações

Gerir correio eletrónico

Pesquisar e organizar informação

Utilizar plataformas digitais

Dinamizar espaços educativos em plataformas digitais

Utilizar e explorar aplicações para dispositivos móveis

Selecionar, criar e modificar recursos educativos digitais

Utilizar e explorar ferramentas digitais de trabalho colaborativo

Comunicar através de serviços de audio e videoconferência

Dinamizar espaços educativos dedicados em redes sociais

Dominar ferramentas de ensino a distância

Gamificar situações de aprendizagem

Participar em comunidades de prática

   

 Desde o seu início, em 1993, os CFAE acompanham os docentes na conquista e reconquista da eficiência tecnológica na atividade docente oferecendo, gradualmente, oportunidades de formação no domínio das novas tecnologias de informação e comunicação. A grande maioria dos docentes soube ganhar essas oportunidades e competências.

 Muito proximamente, mais e novos desafios se avizinham sob a designação Plano de Ação para a Transição Digital, mais especificamente, Digitalização das Escolas e Capacitação Digital dos Docentes. Esta capacitação tem como linhas mestras o DigCompEdu – Quadro Europeu de Competência Digital para Educadores, quadro para o desenvolvimento da competência digital dos educadores na Europa que pretende ajudar os estados membros a promover a competência digital dos seus cidadãos e impulsionar a inovação na educação.

  Voltaremos a esses desafios em próximos números da OZARFAXINARS. O CFAE_Matosinhos estará, como sempre, ao lado dos docentes de Matosinhos nesta nova demanda.

 Para terminar, destacamos do DigCompEdu:

Os educadores são exemplos para a próxima geração.

Por isso, é vital que estejam equipados com a competência digital

que todos os cidadãos necessitam para participar ativamente numa sociedade digital.

 

Como cidadãos, os educadores precisam de estar equipados com essas competências

para participar na sociedade, quer a nível pessoal quer profissional.

 

Como exemplos, precisam de ser capazes de demonstrar a sua competência digital

perante os aprendentes e legar o uso criativo e crítico que fazem das tecnologias digitais.

 

Enquanto exemplos, eles são, em primeiro lugar,

facilitadores de aprendizagem ou simplesmente: educadores.

 

Enquanto profissionais dedicados ao ensino,

necessitam, além das competências digitais gerais para a vida e o trabalho,

de competências digitais específicas ao educador

para serem efetivamente capazes de utilizar tecnologias digitais para o ensino.

 

R  e  f  e  r  ê  n  c  i  a  s

 

Lévy, P. (1990) As Tecnologias da Inteligência O Futuro do Pensamento na Era Informática. Ed. Instituto Piaget, Lisboa

Lucas, M., Moreira, A. (2018). DigCompEdu – Quadro Europeu de Competência Digital para Educadores. Ed. Universidade de Aveiro, Aveiro

 

Agradecemos, desde já, a sua opinião sobre este número - ozarfaxinars@gmail.com

 

© CFAE_Matosinhos